sexta-feira, 1 de maio de 2020
Meu corpo, venho tomando limão, propolis, oleo de copaíba. Corro, exercito, me alimento. Equilibro o alcool. Os alicerces da piração estão alternando entre dias de lucidez com um ou outro de leveza. Venho tomando artemísia, camomila, valeriana, maracujá, melaleuca. Tomando sol nua, e até banho de lua. meditei, acendi vela, senti a água correndo em riachos que repartem meu corpo em pedaços de pele entre água. às vezes me arrepio quando sinto molhar entre lábios.
Meu corpo, comecei a cuidar e te olhar, sentir e ouvir. Me transportei algumas vezes para fora de você para que pudesse talvez te tocar como se fosse outro. Foi bom.
Então, fiquei em dúvida sobre o meu acordar. Quando olhei para você, e todo machucado não soube me responder do que se trata essa dor no estomago todo entardecer. E esse insistir em não desligar quando a madrugada entra. As vezes me dá tesão, ou seria apenas vontade de dormir?
Acontece que hoje, dia do trabalhador, eu não precisei te levar para o banco. Eu não precisei te desfilar. Gosto de voce disfarsado de consumo, apesar de muitas vezes ter de controlar esse universo em desencanto.
Lembra? Semana passada você lia sobre esses incidentes que aparecem na vida, as vezes acidentes, as vezes corte de faca. E ontem foi uma espinha que se transformou em algo parecido como soco no nariz. Além de dois copos quebrados, e tropeços e escorregões na corrida, no estacionamento.
Uai corpo. Se você é o que materializa o que sou, me ensine a deixar o controle e sentir que se o universo está em sofrimento, como que eu, pertecente deste, poderia escapar? Aos prantos, como diz Letrux. Falta saber. Dói saber que ainda acho que posso me distanciar de tudo que sou.
quinta-feira, 23 de abril de 2020
Foi dia de dor de estomago e de chá. Voltei a me arrastar para acordar, mas, sem desistir dos exercícios. Sigo firme e depois de suar o corpo parece que ele desperta. E fica. Levei um susto hoje durante a meditação e percebi quanto venho me entregando um pouquinho por dia a me observar. Chubaka pulou perto de mim, e eu acabei abrindo os olhos em sobresalto. Acordei pensando em fazer uma declaração pra minha mãe, daí ela passou aqui e não senti. É preciso ver, e deixar de romantizar, o amor parece ser mais que sentir, será? De uns tempos pra cá estou cheia de rotinas dentro do meu tempo comigo, é esquisito demais quando entra alguém, e tira este momento de liberdade que tenho. Acho que foi isso que senti quando minha mãe e o Lace chegaram em casa pela manha. Ainda não estava vestida, e tomava meu cafézinho, ouvia música, talvez dançava. Nada de desamor, era só meu momento. O trabalho me toma o dia, mas, estou conseguindo desligar, deixando as proposta de negócio lá dentro da agência, e ficando só com a psicologia, os pensamentos, as duvidas, as poesias por aqui. Faz bem Júlia, um passo por vez, e a vida logo será outra, entre tantas que você já viveu continuamente.
quarta-feira, 22 de abril de 2020
"Quem semeia vento, diz a razão, colhe sempre tempestade." Vinicius de Moraes
Insensatez mesmo é o nome dessa quarta feira de cinzas. Cinza o céu, indeciso sobre ensolarar ou chuviscar. Certa hora, eu já não sabia se toda aquela aceleração era na mente ou alguma dor disfarsada. Eu às vezes tenho dessas, a farsa é tão grande que nem mais sei o que é que tem por detrás. Me perco. Sei lá, quando voltei para casa, lavei a louça, tomei banho e fui fazer prova. Aprendi um monte. E agora, me sinto melhor. Parou a chuva, foi bom.
terça-feira, 21 de abril de 2020
O dia que diz-se fim. Ou o amanhã sem saber-se. Ou o ano que o vinte vem antes e depois dele mesmo. Ou o ano novo, carnaval, e pandemia.
Medo de morrer já tive, mas, e medo de matar? Já tive. Mas, e medo de adoecer todas as pessoas que te motivam a viver?
Cidades vazias, comercios fechados, carros parados, mas, o mundo virtual está lotado, nunca tanto quanto. Conexões infinitas, espaços naturalizados sem fronteiras. Lotado também os hospitais do mundo, quase todos com a mesma doença. O tal, covid 19 que chegou em 20. Tenho corrido, me cansado para enfim conseguir meditar. Tenho agradecido. Estudado. Insone, sonhado. Inconsciente mandando notícias muito loucas, inclusive esses dias minha mãe tinha me internado num hospício. Acordei com um sentimento terrível de injustiça. Lembro de antes de me entregar a estar em estado de dopação, apontei bem o dedo para minha mãe e disse três pontos defesa - que não me lembro mais. Alias, passei alguns dias de férias em pandemia, sempre soube que um dia a morte viria, e por isso gosto de vencer os melhores momentos da vida, recriando novos e compartilhando outros. Agora, se fossem as ultimas ferias, não poderia fazer a melhor e ultima viagem. Teria de ser em casa. Tudo certo, comecei a ser quem eu gostaria na individualidade, exercitar o corpo, escrever, aprender psicologia, conviver com minha gata, declarar meu amor, fotografar com meu olhar todos os fins de tarde que pudesse. E assim foram as férias, as vezes pensava, mas, em grande parte estava distraida vivendo no mundo virtual. Era tempo de olhar pra dentro pensei, no final das férias parei de mentir e passei a conviver mais comigo. Foi bom.
terça-feira, 29 de novembro de 2011
terça-feira, 25 de outubro de 2011

Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir
Ah, se ao te conhecer
Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir
Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir
Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu
Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu
Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios ainda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair
Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Além do ponto - Caio F. Abreu
"Chovia sempre e eu custei para conseguir me levantar daquela poça de lama, chegava num ponto, eu voltava ao ponto, em que era necessário um esforço muito grande, era preciso um esforço muito grande, era preciso um esforço tão terrível que precisei sorri mais sozinho e inventar mais um pouco, aquecendo meu segredo, e dei alguns passos, mas como se faz? me perguntei, como se faz isso de colocar um pé após o outro, equilibrando a cabeça sobre os ombros, mantendo ereta a coluna vertebral, desaprendia, não era quase nada, eu mantido apenas por aquele fio invisível ligado à minha cabeça, agora tão próximo que se quisesse eu poderia imaginar alguma coisa como um zumbido eletrônico saindo da cabeça dele até chegar na minha, mas como se faz? eu reaprendia e inventava sempre, sempre em direção a ele, para chegar inteiro, os pedaços de mim todos misturados que ele disporia sem pressa, como quem brinca com um quebra-cabeça para formar que castelo, que bosque, que verme ou deus, eu não sabia, mas ia indo pela chuva porque esse era meu único sentido, meu único destino: bater naquela porta escura onde eu batia agora. E bati, e bati outra vez, e tornei a bater, e continuei batendo sem me importar que as pessoas na rua parassem para olhar, eu quis chamá-lo, mas tinha esquecido seu nome, se é que alguma vez o soube, se é que ele o teve um dia, talvez eu tivesse febre, tudo ficara muito confuso, idéias misturadas, tremores, água de chuva e lama e conhaque batendo e continuava chovendo sem parar, mas eu não ia mais indo por dentro da chuva, pelo meio da cidade, eu só estava parado naquela porta fazia muito tempo, depois do ponto, tão escuro agora que eu não conseguiria nunca mais encontrar o caminho de volta, nem tentar outra coisa, outra ação, outro gesto além de continuar batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, na mesma porta que não abre nunca."
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